Sutil desespero
Ouvi passos na escada, passaram dois minutos só os suspiros de Fabíola ecoavam atrás daquelas escadas daquele colégio que completaria seu jubileu de ouro.Típico colégio de freiras de uma pacata cidade do interior.Ela saiu com o joelho ensaguentado, parecia que viu um fantasma.Como se não bastasse sua vida já ser bastante conturbada, e eu jurei que o senso da indiferença já havia brotado naquela garota.Não a vi mais deste então.Não ouvi mais seu cantarolar da vozinha irritante de quem acabara de entrar na puberdade e dava seus ataques histéricos, e até que conseguia me alegrar quando não tinha mais nada para fazer.
Desde então, não vi mais Fabíola.Vi uma figura no mesmo corpo que ela, minha ‘coleguinha de classe’ tinha.Aquela menina que antes era tagarela não falava mais com ninguém. O joelho ensaguentado na entrada da escola foi mais um sintoma. Havia dias que chegara com um dos olhos roxos e dizia tê-lo batido na quina do criado-mudo enquanto dormia.Fabíola com seu jeito extrovertido, era relativamente boa aluna, vinha de uma família tradicional daquela pequena cidade.Seu pai era um indivíduo bem respeitado.Sua mãe, uma filha de um fazendeiro, constituída de uma boa postura na sociedade local.Tinha mais dois irmãos.Fabíola era a mais velha daquela tríade. Logo, com seus problemáticos e e escondidos treze anos por detrás dos sutiãs que se dão as meninas logo no início da adolescência afim de sustentar os seios.E era nas entrelinhas que a vida conturbada se escondia.
O que ninguém sabia é que Fabíola era violentada pelo próprio pai desde a infância.Tinha um certo discernimento, mas não tinha coragem o suficiente para gritar e expor sua dor.A princípio a violência doméstica entre aquela família era vista como uma imposição de respeito diante da autoridade do pai.Apesar, de Fabíola ser boa aluna era alguém que não aceitava qualquer opinião, com exceção da de seu pai que era a supremacia.Passaram alguns anos, a violência física e da memória, passa a acentuar.O dito cujo que se diria pai daquela menina, viu os primeiros vestígios de um corpo de mulher se formando naquele pedaço de ser que ajudou a constituir.
Estava sozinho em casa com a filha assim que a mesma chegara do colégio.Saia rodada, camisa branca, sapatos de boneca, e algumas espinhas próximas ao couro cabeludo.Enquanto ela arrumava o lanche na cozinha, não se sabe ao certo o que alimentou o desejo daquele senhor dito pela sociedade local como severo, honesto, ‘um exemplo de homem’.Ele a puxou pelas tranças, e prefiro não entrar nos detalhes mais sórdidos, pois não sei se seria capaz de narrar tamanha crueldade.Fabíola, não virou mulher.Ela se tornou uma criança que se refugiava por detrás de si mesma, entorno daquela fragilidade buscando abrigo.
Falou com a mãe, mas ninguém a ouviu.Acreditou ser invenção da cabeça de uma menina desmiolada, que gostaria de causar alguma briga entre aquele casal.No outro dia foi ao colégio, chegou ao corredor do pavilhão principal, subiu as duas escadas.Se benzeu diante da estátua de Nossa Senhora como era de costume, e se encolheu numa ‘concha cataplásmica’ que fizera na escada que subiria com acesso ao salão de festas.
Ouvi um choro, bem baixinho.Aquele choro de desespero.Mas, que tinha de ser oculto pois era unido ao medo.Nunca mais reconheci Fabíola.Vi uma boneca de porcelana que quebrara logo ali na minha frente e precisava de uma cola, de preferência instantânea afim de consertar.
Não tive mais notícias do caso.Só espero que onde ela esteja tenha conseguido continuar aquilo que dizem ser vida.
*Caso fictício
Day disse,
novembro 3, 2008 às 1:45 am
Natália, eu to passando rapido para comentar não do post (que AINDA não lí) mas do visu, q ta lindão *-*